O GUANANDI

De todas as árvores brasileiras nativas, o Guanandi é a madeira que melhor adapta-se às florestas hidrófilas (inundadas em parte do ano) e ciliares. Comparado ao Eucalipto, suas raízes são mais fáceis de destocar facilitando o replantio posterior ao corte. No exterior, mais conhecido como Santa Maria ou Alfaro, tem ativo mercado próprio e também apresenta-se como boa opção ao Mogno, dada suas características físicas e aparência.


Como resultado de nossas pesquisas, até o presente, temos a seguinte descrição e ficha tecnológica: 


ϒ Classificação científica: Da família das Gutiferáceas, espécie Calophyllum brasiliense Cambess., Guttiferae.

ϒ Outros nomes populares: Jacareúba (AM), cachincamo, cedro-do-pantano, cedro-mangue, guanandi-carvalho, guanandi-cedro, guanandi-piolho, guanandi-rosa, landi, landim, mangue, olandim e olandi, dentre outros. Nos outros países das Américas seu nome mais comum é Santa Maria, Alfaro ou Leite de Maria.


ϒ Ocorrência: Ampla dispersão neo-tropical. No Brasil, na Amazônia, no Centro Oeste, no Sul e Sudeste. Em outros países, desde o sul do México passando por toda a América Central, Guianas, Antilhas, até a Bolívia. É encontrado em altitudes abaixo dos 1.500 metros, em climas tropicais e com precipitações anuais superiores a 1.200 mm. No Sudeste e Sul do Brasil encontramos três variedades da mesma espécie, o guanandi-carvalho (madeira amarelada), o guanandi-cedro (madeira vermelha) e o guanandi-piolho (madeira avermelhada), sendo que esta última é muito atacada por insetos. Muito explorado devido a beleza de sua madeira, o Guanandi, em certas regiões da América Central, já é listado como de ocorrência ocasional para rara, até em parques e reservas.
ϒ Etimologia: Em termos científicos, Calophyllum significa folha bonita. Assim, temos como tradução livre para o Guanandi: “Folha bonita do Brasil”. Já este nome popular, Guanandi, em Tupi-Guarani, vem de gwanã’di e significa “aquilo que é grudento” por causa da gomo-resina que produz.
ϒ Fatos Históricos:
 


O Governo Federal do Brasil, em 1810, reservou para o Estado o privilégio de cortar esta planta a fim de que a respectiva madeira fosse aplicada exclusivamente em mastros e vergas de navios. Esse decreto foi inspirado pelo fato de ser o caule do Guanandi notavelmente alto e reto.

Em 1823 foi requerido ao governo Federal privilégio para o fabrico de barris de jacareúba.

• A Carta de Lei de 15 de outubro de 1827, no § 12 do art. 5º, incumbia aos juízes de paz das províncias a fiscalização das matas e zelar pela interdição do corte das madeiras de construção em geral. Daí, como seu corte era proibido por lei, surgiu a expressão “madeira de lei".

• O decreto imperial, de 7 de janeiro de 1835, dando novo regulamento para o corte das matas, classificou esta árvore como produtora de madeira de lei. Assim, o Guanandi é a primeira madeira de lei do país.


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Características gerais:
 


Segundo descrição do Dicionário das Plantas Úteis do Brasil: Árvore alta e frondosa, até 35 metros de altura e 60 centímetros de diâmetro, geralmente metade, mais ou menos, quanto à altura, porém conservando sempre um grande diâmetro; casca amarelo-vermelhada, até 2 centímetros de espessura, revestida de epiderme dura, muito fendida, mais ainda nos indivíduos velhos, quebradiça , meio fibrosa e composta de lâminas superpostas, de sabor doce e com aroma de mel , exsudando abundante e espessa gomo-resina de cor amarelo-esverdeada; ramos novos um pouco comprimidos; folhas opostas, pecioladas, simples , elíptico-lanceoladas ou oblongas , obtusas no ápice e mais ou menos

 

cuneiformes na base, até 13 centímetros de comprimento e 6 centímetros de largura, inteiras, coriáceas-vernicosas, peninervadas e com a nervura secundária quase retangular com a central, e esta saliente até perto do ápice; flores brancas, pequenas, aromáticas de duas sépalas e dez estames dispostas em racimos de 5 centímetros de comprimento, multifloros, axilares e terminais; fruto drupa globosa, carnosa, oleaginosa, de endocarpo crustáceo”.

Características sensoriais: Cerne e alburno pouco distintos pela cor; alburno bastante espesso; cerne bege-rosado tendendo para castanho; madeira ondeada de belo efeito quando envernizada; cheiro e gosto imperceptíveis; densidade média; moderadamente dura ao corte; grã irregular; textura média; superfície lustrosa.

Descrição anatômica macroscópica: Parênquima axial: visível apenas sob lente, em faixas contínuas ou interrompidas, afastadas. Raios: visíveis apenas sob lente no topo e na face tangencial; finos; poucos. Vasos: visíveis a olho nu, médios; muito poucos a poucos; porosidade difusa; arranjo diagonal; solitários; obstruídos por tilos. Camadas de crescimento: indistintas. Máculas medulares: presentes em alguns espécimes.


ϒ Durabilidade natural e trabalhabilidade química: Madeira susceptível ao ataque de perfuradores marinhos, mas moderadamente resistente aos térmitas. Moderadamente resistente aos organismos xilófagos. Boa resistência aos Fungos de podridão parda e branca, não susceptível ao ataque de Lyctus e baixa a média resistência ao cupim subterrâneo (Reticulitermes santonensis). Alburno permeável à impregnação e cerne impermeável. Madeira considerada imputrescível dentro d’água.

ϒ Tratamento preservativo: Apresenta baixa permeabilidade às soluções preservativas em tratamento sob pressão, pois os poros são parcialmente preenchidos pela gomo-resina que a caracteriza.
ϒ Características de processamento:
 


Trabalhabilidade: A madeira de jacareúba é relativamente fácil de ser trabalhada. Retém pregos e parafusos com firmeza e não apresenta grandes dificuldades na colagem. Fácil de serrar, ocasionalmente a presença de resina pode causar problemas. É boa para faquear e desenrolar. Pintura e envernizamento podem ser aplicados sem problemas.

Secagem: A secagem ao ar livre deve ser cuidadosa, pois a madeira apresenta alta tendência ao surgimento de rachaduras e empenamentos. A secagem em estufa deve ser feita com precaução e somente para peças com pouca grã entrecruzada. Programas de secagem podem ser obtidos em CTFT/INPA (s.d.) e Jankowsky (1990).


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Propriedades físicas:
 


Densidade de massa (ρ): Aparente a 15% de umidade (ρap,15): 620 kg/m3 / básica (ρbásica): 517 kg/m3.

Contração: Radial: 5,6% / tangencial: 8,7% / volumétrica: 16,9%.


ϒ Propriedades Mecânica:
 
Flexão, resistência - fM:
   
◊ Madeira verde (MPa): 62,4.
◊ Madeira a 15% de umidade (MPa): 80,4.
◊ Módulo de Elasticidade madeira verde (MPa): 9.277.
◊ Limite de Proporcionalidade - madeira verde (MPa): 33,6.
 
Compressão paralela às fibras, resistência - fcO:
   
◊ Madeira verde (MPa): 32,0.
◊ Madeira a 15% de umidade (MPa): 48,5.
◊ Limite de Proporcionalidade – madeira verde (MPa): 23,8.
◊ Módulo de Elasticidade – madeira verde (MPa): 12.562.
◊ Coeficiente de influência de umidade (%): 3,0.
 
Outras propriedades mecânicas:
   

◊ Resistência ao impacto na Flexão – madeira a 15% (choque) – Trabalho Absorvido (J): 17,6.
◊ Cisalhamento – madeira verde (MPa): 9,1.
◊ Dureza Janka – madeira verde (N): 4.060.
◊ Tração Normal às Fibras – madeira verde (MPa): 5,1.
◊ Fendilhamento – madeira verde (MPa): 0,6.


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Floração: Agosto - Outubro, Setembro – Novembro.

ϒ Frutificação: Abril - Junho.

ϒ Cultivo: Germina em 50 dias. Sementes não dormentes com viabilidade curta em armazenamento (não ultrapassando de 90 dias), germinação ocorre em 40-60 dias e é superior a 50%. O desenvolvimento é moderado e as mudas podem ser transplantadas ao local definitivo quando atingem 30-40 cm de altura.

ϒ Usos principais:

 


Movelaria: Móveis de alta qualidade (como estrutura, peças acessórias, colagem ou revestimento laminado), modulados (mobília e armários) e marcenaria planejada.

Construção civil:

   


Nas estruturas: Em vigas compostas, em partes secundárias e como ripas ou caibros.

Nas obras internas: Pisos (tabuados maciços, tacos ou laminados), decks, forros, batentes, rodapé, portas, molduras, montantes de escadas singelas e extensíveis além de carpintaria em geral (pranchas, vigas, caibro, tábuas, pontaletes, sarrafos e compensados).

 


Arquitetura: É planta elegante, ornamental, utilizada em paisagismo e arborização de praças, ruas e avenidas. Em países da América Central, é utilizada na arborização rodoviária. Os galhos são usados para sustentação de orquídeas.

Construção naval: Construção de canoas, vigas e mastros de embarcações. A casca do Guanandi produz certa quantidade de estopa usada na calafetagem de pequenas embarcações.

Medicina:

   


◊ A gomo-resina que dela se obtém (bálsamo de jacareúba) é amarelo-esverdeada, aromática, de sabor amargo e um pouco acre. É empregada na medicina como anti-reumática, resolvente de tumores e úlceras crônicas.

◊ O chá das folhas e da casca ajuda no tratamento da diabetes. No preparo do chá da casca, deve-se retirar a resina que vem flutuando na água.

◊ O Guanandi é indicado também como anti-séptico, em decocção para uso externo.

◊ Em Mato Grosso, chás e banhos preparados com a casca do caule são utilizados como antiinflamatórios e mesmo no tratamento de varizes e hemorróidas.

 


Veterinária: Para os eqüinos em geral, sob a forma de “emplasto corroborante, escandescente e resolvente contra a relaxação dos tendões”.

Energia: Os frutos dão óleo límpido, com 44% de pureza, de cheiro cítrico e agradável aproveitado para iluminação, transporte e outros fins industriais.

Alimentação animal: A forragem desta espécie apresenta 7% de proteína bruta e 6 a 12% de tanino (oriundo das folhas e da casca).
 

 

Reflorestamento para recuperação ambiental: Por ser um árvore nativa ela já está adaptada ao nosso ecossistema. Apícola, suas flores são muito visitadas pelas abelhas. Os frutos do guanandi são muito procurados pela fauna (tucanos, veados e morcegos), seus principais dispersores, além de serem disseminados por hidrocória (levados pelas águas pluviais e fluviais). É indicado, principalmente, para reposição de mata ciliar em locais sujeitos a inundações periódicas de média a longa duração, bem como em solo encharcado por períodos que variam entre três a quatro meses anualmente.

 

Outros: Dormentes, celulose, papel, cabos de ferramentas, parte de implementos agrícolas, postes, cercas, pontes, barris de vinho, instrumentos musicais, esculturas, cabos de talheres, embalagens, estrados, engradados, carrocerias e sementes para viveiros de mudas.